Mais que um Setembro Amarelo: precisamos de um ano mais humano

É setembro, aquele período do ano em que o LinkedIn, o Instagram e as empresas se enchem de lacinhos amarelos, comunicados, palestras sobre saúde mental e inúmeras ações sobre o tema.
Nada contra. Na verdade, eu, como palestrante de felicidade e bem-estar, acho tudo isso importante e necessário.
No entanto, me entristece quando percebo que essas iniciativas, na maioria das vezes cheias de boas intenções, não são pensadas a longo prazo. Uma palestra falando sobre saúde mental não vai resolver um ambiente onde o assédio faz parte da cultura ou onde a liderança não se compromete verdadeiramente com o bem-estar das pessoas.
Não podemos falar de saúde mental em setembro e passar os outros onze meses contribuindo para o adoecimento dos nossos colaboradores.
Questões como assédio, excesso de trabalho, comunicação agressiva, metas inalcançáveis, ambientes de incerteza e até condições insalubres de trabalho fazem um Setembro Amarelo ser insuficiente.
Precisamos de mais do que um mês amarelo. Precisamos de um ano mais humano.
E isso não é apenas uma percepção minha.
Para além das experiências que encontro nas empresas, os números mostram o quanto é urgente buscarmos ambientes de trabalho que genuinamente se comprometam com essas pautas.
Segundo dados preliminares de 2025 divulgados pela Previdência Social e repercutidos pela Fundacentro, foram concedidos 546.254 benefícios por transtornos mentais e comportamentais no Brasil, um crescimento de 15,66% em comparação com 2024.
Os afastamentos são apenas uma das formas pelas quais esse sofrimento aparece nos números. Quando ampliamos o olhar para a saúde mental como um todo, encontramos dados ainda mais duros.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no mundo. O suicídio é a terceira principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos.
Por trás desses números estão pessoas atravessando situações de sofrimento profundo.
É evidente que não podemos atribuir esses casos exclusivamente ao trabalho. Estamos falando de fenômenos complexos, atravessados por diferentes fatores individuais, sociais, familiares, econômicos e de saúde.
Mas existe uma coisa que não podemos ignorar: o trabalho ocupa uma parte enorme da nossa vida adulta e é também um dos nossos principais espaços de socialização.
E se, durante toda essa convivência, não estamos conseguindo perceber a dor do outro, construir relações mais saudáveis e promover bem-estar, acolhimento e gentileza, por mais que a gente gere resultado, lucratividade e EBITDA, uma
pergunta continua me incomodando:
Que tipo de empresa, sociedade e pessoas estamos formando?
E, nessa loucura, a gente precise voltar a fazer o básico.
A gente precisa reaprender a enxergar gente.
Perceber as pessoas pelo caminho. Prestar atenção em quem está perto. Porque, sim, provavelmente existe alguém muito próximo de você neste momento enfrentando alguma batalha. E, muitas vezes, sofrendo em silêncio.
Há cerca de seis anos corto o cabelo no mesmo lugar. Mesma barbearia, mesmo corte, mesmo barbeiro. Acho que até a tesoura é a mesma.
No meu caso, como é cabelo e barba, é cerca de uma hora de atendimento. Às vezes o barbeiro se empolga e ficamos uma hora e meia ali, naquela experiência secular masculina de sentar numa cadeira e conversar sobre a vida enquanto
alguém segura uma navalha no seu pescoço.
Apesar de passar tanto tempo com ele, foi apenas há cerca de um ano que descobri que meu barbeiro enfrenta uma depressão profunda há anos e que, em alguns momentos, seu sofrimento chegou a um ponto muito grave.
E por que estou contando essa história?
Porque durante anos me relacionei com ele sem saber o tamanho da dor que carregava.
A gente conversava. Eu perguntava da vida. Ele perguntava da minha. Falávamos sobre um monte de coisas. Mas, até determinado momento, nunca tínhamos falado com profundidade sobre aquilo.
Foi preciso um momento de atenção genuína. Um momento em que as certezas foram menores do que a curiosidade de entender o mundo do outro.
Hoje tenho a impressão de que não estamos mais apenas cortando o cabelo.
Falamos com mais profundidade sobre algumas questões duras da vida.
Não acho que uma boa conversa substitua ajuda profissional. Não substitui. Por isso, entre uma tesourada e outra, continuo incentivando que ele procure acompanhamento especializado.
É difícil.
Mas eu corto o cabelo toda semana.
Toda semana é uma nova oportunidade para tentar.
Eu sei, eu sei, eu sei.
Estamos ocupados demais com nossas próprias questões.
É meta para bater, relatório para entregar, mensagem para responder e reunião no Teams que deveria durar trinta minutos, mas já passou de uma hora.
E ainda existem as responsabilidades para além do trabalho: estudo, atividade física, relacionamentos, casa, filhos, família.
Essa sobrecarga também não acontece da mesma forma para todo mundo.
Dos 546.254 benefícios por transtornos mentais e comportamentais concedidos em 2025, 63,46% foram destinados a mulheres. O dado, sozinho, não explica as causas dessa diferença, mas nos obriga a olhar com mais atenção para as desigualdades que atravessam a vida e o trabalho.
O IBGE mostra, por exemplo, que, em 2022, as mulheres dedicavam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas. Entre os homens, eram 11,7 horas.
Ou seja, falar de saúde mental também exige falar sobre como estamos dividindo responsabilidades, oportunidades e cuidados dentro e fora das empresas.
E os homens também enfrentam suas próprias barreiras.
Muitos de nós fomos educados desde cedo para associar masculinidade à força, ao controle e à autossuficiência. A gente aprende muito cedo que certas emoções precisam ser escondidas.
Aquela velha frase, “engole o choro, isso é coisa de menina”, fica com a gente.
E, de repente, estamos com trinta, quarenta, cinquenta anos, cheios de responsabilidades, sem saber direito como identificar o que estamos sentindo e, muitas vezes, com enorme dificuldade de pedir ajuda.
Por tudo isso, acredito que discutir saúde mental no trabalho exige ir muito além das ações de setembro.
Precisamos construir empresas que se preocupem tanto com resultados financeiros quanto com o bem-estar das pessoas que tornam esses resultados possíveis.
Parece idealismo demais? Utopia? Maluquice?
Talvez.
Mas, às vezes, a gente precisa de umas malucas e uns malucos para mudar as coisas.
E não estou falando apenas de grandes mudanças.
Tem também as pequenas.
Mudanças de comportamento, de postura e até na maneira como interagimos com as pessoas que encontramos pelo caminho.
Em 2023, enquanto viajava para fazer um dos meus eventos sobre felicidade, peguei um carro por aplicativo para o aeroporto.
Eu estava cansado depois de um evento intenso que tinha feito pela manhã. Coloquei o fone de ouvido e tentei ouvir um podcast bobo de humor para aliviar a cabeça.
Contudo, o motorista queria conversar.
Depois de tentar encerrar o assunto algumas vezes, percebi que tinha perdido a batalha de ouvir meu podcast e decidi investir na conversa.
Para render o assunto, fiz aquela pergunta básica do manual universal de como puxar conversa com motorista:
“E aí, meu querido, como tá a praça?”
Eu esperava uma resposta longa sobre trânsito, mobilidade urbana, obras, política, economia, futebol e, quem sabe, até a clássica:
“Brasil é bagunça.”
Mas, para minha surpresa, ele respondeu:
“Até que não tá ruim. Mas, sinceramente, eu trabalho para ocupar a cabeça depois do que eu passei.”
Aquilo era praticamente um convite para perguntar o que havia acontecido.
Perguntei.
E descobri que ele tinha um filho de trinta e poucos anos que havia se casado e viajado para a Colômbia em lua de mel. Durante a viagem, em um passeio de mergulho, o filho passou mal e morreu.
Aquele pai viu o filho sair de casa para uma lua de mel e voltar em um caixão.
Ele já era aposentado e morava com a esposa. Como ela ainda trabalhava, ficar sozinho em casa significava passar horas convivendo com as lembranças do filho.
Por isso, decidiu voltar a trabalhar.
Eu fiquei profundamente tocado pela história.
Contei que também tinha perdido meu pai de forma abrupta. Até brinquei dizendo que o Seu Antônio, meu pai, devia estar lá no céu dando uns esporros e ajudando a cuidar do filho dele.
Quando chegamos ao aeroporto, o motorista olhou para trás e perguntou:
“Posso te dar um abraço?”
Não sei se na cidade de vocês é comum motorista abraçar passageiro, mas nem aqui em Minas, terra de um povo que adora um abraço, isso não acontece.
Eu disse que sim.
Ele saiu do carro.
Eu saí também.
E nos abraçamos.
Naquele momento, tive a sensação de que aquela conversa tinha sido importante para nós dois.
E também percebi uma coisa sobre mim.
Percebi que meu propósito de espalhar leveza e felicidade para as pessoas não está apenas nos palcos, nas empresas, nas palestras ou diante de centenas de pessoas.
Ele estava ali.
Dentro de um carro.
Ou em uma barbearia.
Numa fila.
Numa conversa que eu quase não tive porque estava ocupado demais tentando ouvir um podcast.
Quando digo que quero espalhar leveza e felicidade para todas as pessoas, estou falando de todas que eu puder encontrar pelo caminho.
Do motorista ao barbeiro. Da recepcionista à gerente de RH. Do CEO ao segurança. Da senhora que pede ajuda na fila do laboratório aos meus amigos de longa data.
Porque existe uma coisa que essas histórias me ensinaram:
A gente nunca sabe completamente o que uma pessoa está enfrentando.
E, se não prestarmos atenção, é muito fácil deixar de perceber gente.
A distração pode ser um podcast. Pode ser uma notificação do WhatsApp. Um e-mail. Uma reunião. Uma meta. Um relatório. Ou simplesmente a correria da vida contemporânea.
E essa é minha provocação sobre o Setembro Amarelo.
Não apenas falar sobre saúde mental.
Mas olhar.
Perguntar.
Escutar.
Perceber.
E fazer isso não apenas em setembro.
Que os lacinhos amarelos, as campanhas, os comunicados e as palestras sejam importantes. Mas que eles nos lembrem de construir empresas mais humanas, relações mais humanas e, quem sabe, uma sociedade um pouco mais humana durante o ano inteiro.
Porque você provavelmente não conseguirá resolver a batalha que alguém está enfrentando.
Mas pode escolher não tornar essa batalha ainda mais difícil.
E, como diz o comediante Patton Oswalt:
O mundo já é difícil. Seja gentil.
Um beijo do Evertinho.
Ouse ser leve.



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